Revista Espaço Ética

Por que sociedades plurais e globalizadas ainda sofrem com a intolerância?, por José Ulisses Leva

POR QUE SOCIEDADES PLURAIS E GLOBALIZADAS AINDA SOFREM COM A INTOLERÂNCIA?

José Ulisses Leva[1]

Como citar

LEVA, José Ulisses. Por que sociedades plurais e globalizadas ainda sofrem com a intolerância?   in: Revista Espaço Ética: Educação, Gestão e Consumo. Ano III, N. 07, Jan./Abr. de 2016, ps. 95-99 – ISSN: 2359-5795

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Introdução

A revista Espaço Ética chega ao terceiro ano de publicação com pleno fôlego trazendo temas recorrentes e pertinentes aos seus assíduos e exigentes leitores. É uma revista de vanguarda e questionadora. Amalgamada dos mais diversificados articulistas, deixa o leitor inquietante na descoberta de valores e posicionamentos. Espaço Ética, em sua sétima edição, traz um intrigante tema – Por que sociedades plurais e globalizadas ainda sofrem com a intolerância? – e uma enorme e variada possibilidade de interfaces. Três aspectos do tema são nítidos e emblemáticos para serem analisados: sociedade plural, globalização e intolerância. Como relacioná-los e produzir um eficiente artigo? Como maturá-los sob a vertente religiosa? Como dialogar apresentando o perfil do articulista sem ferir a percepção e a identidade religiosa dos leitores?

Dogmatismo: identidade religiosa

“Quem não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor” (1 Jo 4, 8). O apóstolo e evangelista João deixou-nos registrada essa pérola do Evangelho de Jesus Cristo. A Trindade Santa é a comunhão de amor das três pessoas divinas que na Economia da Salvação garante aos homens e mulheres a alegria na vida presente e a felicidade plena na eternidade. Os pilares do cristianismo são: ENCARNAÇÃO – “O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer será chamado santo, Filho de Deus” (Lc 1, 35) e RESSURREIÇÃO – “Jesus disse então: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês nisto?” (Jo 11, 25-26). Professamos no Credo Niceno Constantinopolitano a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica (DENZINGUER, HUNERMANN, 2007). Entendemos que o Anúncio Querigmático de Cristo Jesus “Completou-se o tempo, e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede na Boa Nova” (Mc 1, 15) deve ser anunciado a toda a humanidade: “Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-lhes tudo o que vos tenho ordenado. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28, 19-20). Assim lemos no Evangelho: “Qual é o primeiro de todos os mandamentos? Jesus respondeu: O primeiro é este: Ouve, Israel! O Senhor nosso Deus é um só. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com toda a tua força! E o segundo mandamento é: Amarás teu próximo como a ti mesmo. Não existe outro mandamento maior do que estes” (Mc 12, 28b-31).

Sociedade plural

“Naqueles dias, saiu um decreto do Imperador Augusto mandando fazer o recenseamento de toda a terra, o primeiro recenseamento feito quando Quirino era governador na Síria. Todos iam registrar-se, cada um na sua cidade. Também José, que era da família e descendência de Davi, subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, à cidade de Davi, chamada Belém, na Judeia, para registrar-se com Maria, sua esposa que estava grávida. Quando chegou ali, chegou o tempo do parto” (Lc 2, 1-26). A historiadora Vavy Borges aponta o cristianismo como religião histórica. “O cristianismo é uma religião eminentemente histórica, pois não prega uma cosmovisão atemporal, mas sim uma concepção que aceita um tempo linear, que se ordena em função de uma intervenção divina real na História” (BORGES, 2007, p. 23). Ainda afirma: “A influência do cristianismo é tão grande em nossa civilização que toda a cronologia de nosso passado é feita em termos do seu acontecimento central, a vinda do Filho de Deus a terra (BORGES, 2007, p. 22). Partimos do pressuposto da historicidade do Altíssimo Filho de Deus, Jesus Cristo, e dos relatos evangélicos como documentos verossímeis. Os primórdios estão intrinsecamente relacionados dentro do Império Romano. Tanto a Palestina no tempo de Jesus Cristo como a primeva Igreja estavam inseridas no vastíssimo e plural Império. Todas as religiões eram possíveis desde que não disturbassem a Pax Romana. Pentecostes mostra a pluralidade da sociedade judaica na Jerusalém das primeiras comunidades cristãs: “Quando chegou o dia de Pentecostes, os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar […] Residiam em Jerusalém judeus devotos, de todas as nações que há debaixo do céu […] Nós que somos partos, medos e elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e da parte da Líbia próxima de Cirene, e os romanos aqui residentes, judeus e prosélitos, cretenses e árabes, todos nós os escutamos anunciando as maravilhas de Deus em nossa própria língua” (At 2, 1-11).

Pluralismo, portanto, não atinge somente e necessariamente a sociedade contemporânea. A sociedade, de todos os períodos históricos, mostra-se plural tanto na composição das etnias quanto na identidade religiosa. A História é rica quando nos apresenta os povos nos seus mais variados contextos. O cristianismo nasceu dentro do Império Romano plural na composição de sua gente tanto quanto no seu panteão de religiões. A sociedade hodierna também é plural e diversificada no ambiente religioso. Apresenta-se a grande pergunta: Como viver e conviver bem com os todos os grupos étnicos e com todas as variantes religiosas?

Globalização

Globalização é toda a Terra habitada. Como dimensionar a responsabilidade pessoal e coletiva do bem comum? Como proporcionar o diálogo e o bem querer entre todas as pessoas? Como viabilizar a paz e a concórdia entre as nações? Qual é o papel das religiões para as benesses humanitárias respeitando a todos e a todas as formas de expressão?

“LAUDATO SÌ, mi’Signore – Louvado sejas, meu Senhor”, cantava São Francisco de Assis. Neste gracioso cântico, recordava-nos que a nossa casa comum se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços […] (FRANCISCO, 2015). O Papa Francisco, em nome da Igreja Católica, propôs na Exortação Apostólica uma convivência harmoniosa entre todos os homens e mulheres na casa comum, isto é, o planeta Terra. Convocou-nos a todos, para que irmanados buscássemos o bem comum. Chamou-nos ao diálogo e ao respeito.

A Campanha da Fraternidade, este ano Ecumênica, tem como tema: “Casa comum, nossa responsabilidade” e traz como lema: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5, 24). A Campanha da Fraternidade nasceu no interior da Igreja Católica, e de tempos em tempos torna-se Ecumênica para multiplicar os agentes do bem, beneficiando um número cada vez maior de pessoas. Trabalhamos na mesma casa com pessoas que pensam e agem diferente, porém, devemos proporcionar sempre condições melhores para todos.

Intolerância

A intolerância, sob todos os aspectos, deve ser banida. Uma palavra que devemos retirar dos nossos dicionários. Uma atitude que devemos combater de forma visceral em benefício de toda a humanidade.

Infelizmente a palavra existe nos dicionários. Sua prática se multiplica de forma avassaladora. A História nos mostra o quanto a intolerância é perniciosa e destruidora. Os intolerantes mancham a civilização e destroem a pacífica convivência entre os povos e a harmonia entre os grupos religiosos.

Como eliminar a intolerância proporcionado respeito mútuo? Como conviver harmoniosa e pacificamente? Quais são os males que provocam a intolerância? Como reverter os males em benefícios que promovam o equilíbrio e a bonança entre os povos? Como detectar a geografia que causa as divisões? Como propor a geografia redesenhando a convivência pacífica?

Extremismo: ignorância religiosa

O extremismo é a consequência da ignorância que produz religião sem deus. “Como filhos obedientes, não moldeis a vossa vida de acordo com as paixões de antigamente, do tempo da vossa ignorância” (1 Pe 1, 14).  Se entendemos que religare pressupõe ligar-se a Deus, torna-se incompreensível matar e destruir em nome de um suposto deus ou um deus fruto da imaginação humana. Deus é amor e tudo em contrário é uma postulação falsa e equivocada em nome do Verdadeiro e Altíssimo Deus Rico em Misericórdia (cf Ef 2, 4).

“Portanto, despojai-vos de toda a maldade, de toda mentira, hipocrisia e inveja e de toda a calúnia […] Caríssimos, eu vos exorto como a migrantes e forasteiros: afastai-vos das paixões humanas, que fazem guerra a vós mesmos […] Pois a vontade de Deus é precisamente esta: que, fazendo o bem, caleis a ignorância dos insensatos” (1 Pe 2, 1-15).

Conclusão

Devemos ter consciência de que vivemos numa sociedade globalizada. Habitamos a mesma Terra. Os meios de comunicação social uniram pessoas e povos. Mantendo nossa identidade pessoal, lembremo-nos de que formamos uma rede interligada e conectada. A Intolerância, sob qualquer ângulo, causa danos irreparáveis às pessoas. A intolerância é fruto da ignorância e do desequilíbrio emocional ou coletivo. Deve ser refutada sob qualquer suspeita e em qualquer circunstância.

É urgentíssimo que na sociedade plural em que estamos todos situados busquemos equilíbrio, paciência, mansidão e misericórdia para nos relacionarmos bem e adequadamente. Todos nós somos responsáveis uns para com os outros, para vivermos dignamente.

 

Referências bibliográficas

BÍBLIA SAGRADA. Tradução CNBB. São Paulo: Edições Loyola, 2001.

BORGES, Vavy Pacheco. O que é história? 11. ed. São Paulo: Brasiliense, 2007. (Coleção Primeiros Passos).

DENZINGUER, H.; HUNERMANN, P. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. São Paulo: Paulinas-Edições Loyola, 2007.

FRANCISCO, Papa. Louvado sejas: sobre o cuidado da casa comum. Carta Encíclica. São Paulo: Paulus-Edições Loyola, 2015.

[1] Mestre em Teologia Dogmática pela Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção.  Doutor em História Eclesiástica pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma (Itália). Professor de História Eclesiástica na PUC de São Paulo. E-mail: juleva@pucsp.br

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