Revista Espaço Ética

O ódio contra a axiologia da diferença na moral do ressentimento, por Renato Nunes Bittencourt

O ódio contra a axiologia da diferença na moral do ressentimento

Renato Nunes Bittencourt

 

Como citar

BITTENCOURT, Renato Nunes. O ódio contra a axiologia da diferença na moral do ressentimento. in: Revista Espaço Ética: Educação, Gestão e Consumo. Ano III, N. 07, Jan./Abr. de 2016, ps. 24-33 – ISSN: 2359-5795

 Resumo: O artigo aborda, em seu ponto crucial, de que maneira o espírito de intolerância contra os signos da diferença se fundamentam em disposições reacionárias e ressentidas contrárias a todo tipo de pluralismo axiológico, e os resultados negativos dessa perspectiva reativa na formação teológica das seitas neopentecostais, alheias ao caráter beatífico da experiência cristã original.

Palavras-chave: Intolerância. Superstição. Violência. Reacionarismo.

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Tanto é fácil ao fanatismo arrancar a vida à inocência, como é difícil à razão restituir-lhe a justiça (VOLTAIRE, 1993, p. 145).

 

Introdução

            Por que sociedades plurais e globalizadas ainda sofrem com os efeitos deletérios da intolerância? Certamente pelo fato de que por detrás da máscara da pluralidade axiológica e da globalização econômica/cultural encontramos ainda o substrato reativo da consciência política autocentrada, regida pela lógica da identidade, tal como um paradigma metafísico imutável que se cristalizou historicamente como o caminho político a ser seguido ininterruptamente pelos sujeitos rumo ao progresso moral, social e espiritual. Intolerâncias de diversos níveis, não obstante o dito processo de desenvolvimento da consciência planetária da humanidade, cada vez mais liberta dos limites nacionais, ainda se manifestam constantemente em diversas circunstâncias cotidianas, situação que evidencia um descompasso entre o aprimoramento científico e o aprimoramento ético dos sujeitos incrustados em valorações reativas e reacionárias em suas vidas. Mesmo sociedades democraticamente maduras sofrem continuamente com efervescências de intolerâncias diversas em suas circunscrições territoriais, ameaçando o espírito de esclarecimento cultural da era moderna. No caso de sociedades atreladas historicamente a princípios patriarcalistas/conservadores/clientelistas, como ocorre usualmente na formação política brasileira, apesar da estúpida mitificação ideológica da população, considerada como “cordial”, “hospitaleira”, “receptiva”, dentre outros adjetivos amistosos, escamoteia-se uma feroz incapacidade de se conviver socialmente nos espaços coletivos de convivência, graças ao espírito idiota tradicional que chancela a vida privada como o fundamento da existência, e que faz da esfera pública uma extensão da própria casa. Quem luta contra esses privilégios corre risco de morte. A falácia da democracia racial brasileira é um disparate contra a contínua espoliação social que grupos historicamente oprimidos sofreram no decorrer das eras, pois no coração de cada burguês, autoproclamado “cidadão de bem”, arde uma chama atávica de senhor colonial, Barão João/Duque Zurro que se proclama fidalgo de espírito, mas que em verdade é um sepulcro caiado cheio de escórias, de misérias existenciais e de preconceitos contra a diferença. Essa pessoa tacanha, herdeira do homem-massa reacionário que vive apenas para saciar os apetites materiais, encontra em todas as estruturas discursivas disponíveis canais para externar sua virulência contra os signos criativos da vida regida pela axiologia da diversidade.

            Nesse quesito, a religião de massa é um poderoso instrumento para a consciência reativa canalizar seus afetos degenerativos, tal como uma peste que não poupa ninguém que se encontra diante de seu caminho. Dentro desse âmbito, a moralidade cristã internalizada na consciência do homem-massa desempenha um papel fundamental para a legitimação radical da intolerância, pois seu caráter totalitário na formação ideológica da sociedade brasileira conduziu a um horrendo silenciamento e esquecimento dos grupos minoritários, dos oprimidos sociais, de todas as pessoas que sofreram estigmatização por seus caracteres divergentes em relação aos padrões homogêneos estabelecidos. Contudo, há que se destacar que no decorrer das eras diversos segmentos cristãos atualizaram sua agenda sociopolítica, apresentando postulados progressistas em suas intervenções na esfera pública, contribuindo assim para a afirmação dos direitos humanos, da justiça, da tolerância, da efetiva paz social nascida do diálogo intercultural em luta contra toda forma de exclusão. Infelizmente, na contramão do progresso cultural, intelectual e político, alguns escusos movimentos proclamados como cristãos apresentam recalcitrantes traços reativos em seus discursos, contribuindo assim para a proliferação do ódio, da violência, da barbárie contra todas as expressões axiológicas que se orientam por paradigmas distintos. É contra essa chusma reacionária que direcionaremos o foco crítico desse artigo.

 

O ódio contra a diferença na religiosidade ressentida

A vivência religiosa pautada pela conquista da autorrealização interior se fundamenta por meio das disposições afetivas mais elevadas, como o amor, a alegria, a tranquilidade de ânimo, processo sagrado que promove a beatitude, sublime estado de consciência no qual o ser humano transcende suas limitações pessoais e adentra em uma concepção de vida integrada ao todo. Quem vivencia em sua experiência religiosa a beatitude não promove a violência contra os seguidores de outras vertentes, pois a imersão pessoal desse sujeito na dimensão sagrada da conexão extática com o divino se caracteriza pela vida radiante de amor, de alegria, poderosas disposições que promovem a comunicação autêntica para com os demais, não importando suas orientações axiológicas.

A pessoa que chafurda na afetividade corrosiva do ressentimento, do ódio, do rancor, é incapaz de experimentar na sua existência cotidiana uma miríade de estados religiosos regidos pela alegria beatífica que transfigura positivamente sua compreensão da realidade, e projeta assim contra todos os que não se associam ao seu modo de ser o veneno de sua própria discórdia interior, não obstante acreditar estar aferrado intimamente aos princípios divinos. Conforme argumenta Slavoj Žižek,

 

Há homens que por julgarem que têm uma comunicação direta com Deus (com a verdade, a justiça, a democracia ou qualquer Outro absoluto) julgam poder atribuir aos outros – aos seus inimigos – uma comunicação direta com o Inferno (os “Estados párias” ou os “eixos do mal”) (Žižek, 2006, p. 202).

 

Por justamente não conseguir se conectar verdadeiramente ao âmbito sagrado, a pessoa religiosa degradada pelo espírito de ressentimento desenvolve disposições autoritárias em seu modo de ser, impondo a terceiros uma economia moral prenhe de sectarismos. Espinosa apresenta no seu Tratado teológico-político uma contundente denúncia contra a hipocrisia do moralismo religioso em sua arrogante crença de predileção divina, em verdade fruto de seu rancor contra a vida:

 

Inúmeras vezes fiquei espantado por ver homens que se orgulham por professar a Religião cristã, ou seja, o amor, a alegria, a paz, a continência e a lealdade para com todos, combaterem-se com tal ferocidade e manifestarem cotidianamente uns para com os outros um ódio tão exacerbado que se torna mais fácil reconhecer a sua fé por estes do que por aqueles sentimentos. De fato, há muito que as coisas chegaram a um ponto tal que é quase impossível saber se alguém é cristão, turco, judeu ou pagão, a não ser pelo seu vestuário, pelo culto que pratica, por frequentar esta ou aquela igreja, ou finalmente porque perfilha esta ou aquela opinião e costuma jurar pelas palavras deste ou daquele mestre. Quanto ao resto, todos levam a mesma vida. Procurando então a causa desse mal, conclui que ele se deve, sem sombra de dúvidas, a considerarem-se os cargos da Igreja como títulos de nobreza, os seus ofícios como benefícios, e consistir a Religião, para o vulgo, em cumular de honras os pastores. Com efeito, assim que começou na Igreja esse abuso, se apoderou dos piores homens um enorme desejo de exercer os sagrados ofícios; logo o amor de propagar a divina Religião se transformou em sórdida avareza e ambição, de tal maneira que o próprio templo degenerou em teatro, onde não mais se veneravam doutores da Igreja, mas oradores que, em vez de quererem instruir o povo, queriam era fazer-se admirar e censurar publicamente os dissidentes, não ensinando senão coisas novas e insólitas para deixarem o vulgo maravilhado. Daí surgirem grandes contendas, invejas e ódio, que nem o correr do tempo foi capaz de apagar (ESPINOSA, 2003, p. 9).

 

Muitos desses fiéis ressentidos proclamam uma concepção abstrata de dignidade da vida, mas em termos práticos aplicam os preceitos necrófilos da violência contra os signos da diferença axiológica. Fazem uma leitura seletiva e tendenciosa dos textos sagrados pelos quais baseiam suas crenças, conforme suas conveniências pessoais, evidenciando a falta de qualquer neutralidade epistemológica, não obstante proclamarem o contrário. Uma pessoa realizada espiritualmente não se afeta jamais pelas diferenças religiosas praticadas e vivenciadas por outrem, mas antes compreende que tal expressão é apenas mais uma bela faceta do sagrado. Esse seria talvez o fundamento ontológico da tolerância, um grande sinal de aprimoramento existencial do ser humano diante da alteridade religiosa. Contudo, um passo maior no processo de expansão da consciência religiosa reside na afirmação da dignidade sagrada da vivência religiosa de outrem, eliminando-se assim o sectarismo reativo que impede o diálogo entre os sujeitos mediados pela participação na esfera divina. A verdadeira realização espiritual consiste na capacidade pessoal de participar das diversas expressões religiosas pautadas pela afirmação da alegria sagrada, dançando, rezando, cantando em comunhão fraterna com os demais. Para Peter Sloterdijk,

 

Os diálogos inter-religiosos só produziriam resultados se, posteriormente, toda a religião organizada desse uma vassourada diante da sua própria porta apocalíptica. Nesse dia, os moderados observarão que os seus respectivos zeladores e guerreiros do fim dos tempos não passam geralmente de ativistas que seguiram uma aprendizagem à pressa, e nos quais a cólera, o ressentimento, a ambição e a busca de motivos de indignação precedem a fé (SLOTERDIJK, 2009, p. 138).

 

A reflexão filosófica sobre a tolerância conduz a uma situação crucial, quase paradoxal: podemos tolerar a intolerância? Existem níveis extremos de intolerância que são intrinsecamente necrófilos, tais como a ideologia nazista, o fascismo militarista, a violência contra grupos étnicos imputados como estranhos e que são assim estigmatizados, o irracionalismo xenofóbico, o reacionarismo machista contra o empoderamento feminino, dentre outras tristes representações sociais. Existe um limite axiológico no exercício da tolerância para com o discurso do outro. Talvez o critério de respeitabilidade para com a enunciação de um sujeito resida no fato de se analisar se porventura o conteúdo do mesmo viola a dignidade humana em suas múltiplas expressões. Nessas condições, até mesmo o princípio de tolerância deve ser relativizado em sua aplicação prática, caso contrário corremos o grande risco de aceitar passivamente a expressão social de discursos regidos pelo espírito de negação absoluta do outro, em sua corrosiva necrofilia. Existe um limite axiológico de tolerância em relação ao discurso do outro. Se tudo pode ser tolerado, nada pode então ser sustentado. Expressões ruidosas de celebrações religiosas realizadas em espaços públicos que primam pela impessoalidade não devem ser aceitas ou toleradas, pois é um acinte contra os ouvidos alheios a audição dessas sonoridades estridentes e histéricas pronunciadas pelos proselitistas da fé.

É absurdo que em nome do princípio de tolerância se aceite que um credo religioso permita a violência contra a mulher, que outro permita a homofobia, que outro permita o racismo, e assim sucessivamente em uma grande cadeia de legitimação estúpida da barbárie. Se tudo pode ser dito em nome do princípio formalista da liberdade de expressão, cabendo para os propagadores de ódio as devidas punições jurídicas (quando o sistema legal funciona efetivamente), erra-se tanto pelo fato de se estimular a mentalidade autoritária a realizar suas enunciações virulentas (punida apenas a posteriori), como pela necessidade urgente de se limparem os efeitos sociais desastrosos desses discursos que estimulam as ações violentas dos grupos que aplicam essas ideias. Como não é possível que o homem reativo mude de pensamento flexivelmente conforme as demandas externas mais progressistas, ao menos se pode impor que ele mantenha no âmbito privado suas bravatas inconsequentes. Liberdade não significa o ato de se fazer o que pretensamente se quer, mas agir sem estímulos externos determinantes. O tipo psicológico ressentido, nessas condições, somente age em resposta às influências tormentosas do outro que lhe desagrada, tal como muito bem analisado por Nietzsche:

 

Os sofredores são todos horrivelmente dispostos e inventivos, em matéria de pretextos para seus afetos dolorosos; eles fruem a própria desconfiança, a cisma com baixezas e aparentes prejuízos, eles revolvem as vísceras de seu passado e seu presente, atrás de histórias escuras e questionáveis, em que possam regalar-se em uma suspeita torturante, e intoxicar-se de seu próprio veneno de maldade – eles rasgam as mais antigas feridas, eles sangram de cicatrizes há muito curadas, eles transformam em malfeitores o amigo, a mulher, o filho e quem mais lhes for próximo (NIETZSCHE, 2000, p. 117).

 

A permissividade ideológica incrustada em algumas pretensas constituições democráticas de cunho liberal erra justamente em permitir que grupos sociopolíticos extremamente reativos expressem impunemente suas opiniões irascíveis contra seus desafetos desde que tais ideias não se realizem em ato, permanecendo apenas no plano teórico; ora, as ideias virulentas não necessitam se efetivar em ato para que possam realizar seu projeto violento, pois seu próprio teor em si já apresenta o gérmen da destruição. Enunciar um discurso sobre algo é assim também uma forma de ação, ainda que desprovida de concretude imediata.

O grande medo difuso que impera na ordem política vigente promove o desenvolvimento de posturas reativas nos sujeitos, acuados perante experiências sociais imputadas como invasivas, desagradáveis. Essa reconfiguração da vivência política em seu degradante processo de privatização idiota estimula a legitimação da assepsia existencial, um histérico noli me tangere próprio da excitação hipertrofiada do homem moderno e seus múltiplos estímulos sensórios conflitantes. Slavoj Žižek é categórico na análise desse problema ético:

 

Hoje, a tolerância liberal perante os outros, o respeito pela alteridade e a abertura a ela, é contrabalanceada por um medo obsessivo de assédio. Em resumo, o Outro está muito bem, mas só na medida em que a sua presença não seja intrusiva, na medida em que esse Outro não seja realmente outro […] O meu dever de ser tolerante para com o outro significa efetivamente que não deveria aproximar-se demasiado dele, invadir o seu espaço. Por outras palavras, deveria respeitar a sua intolerância à minha proximidade excessiva. O que se afirma cada vez mais como direito humano central na sociedade capitalista tardia é o direito a não ser assediado, que é o direito a permanecer a uma distância segura dos outros (Žižek, 2009, p. 44).

 

Não raro a tolerância para com o caráter insidioso do outro se sustenta apenas teoricamente, pois na prática, quando ocorre alguma situação desagradável que viole a bonomia do sujeito “cidadão de bem”, cai por terra toda a sua retórica plácida de amor ao próximo, e assim esse falso fiel cristão mostra sua verdadeira face diabólica.

 

Progresso tecnológico sem aprimoramento ético

O homem moderno, apesar dos inúmeros avanços tecnológicos, não desenvolveu em sua vida um efetivo progresso existencial, um aprimoramento qualitativo das suas aptidões criativas e da sua consciência ética. Os meios de comunicação de massa, em especial no seu processo tecnológico de virtualização, favorecem a conexão interpessoal para além das limitações espaço-temporais. O alcance das ideias alcançou uma efetiva escala global, informações são difundidas em velocidade instantânea. Contudo, apesar da conexão planetária, a mentalidade do homem comum permanece ainda atrelada aos atavismos sectários, étnicos, ideológicos que aprisionam a consciência pessoal a paradigmas reacionários contrários ao progresso cultural e seu poder emancipador. Conforme argumenta Slavoj Žižek,

 

Os que veem a globalização como uma oportunidade que permite que a Terra inteira se transforme num espaço unificado de comunicação, num espaço de reunião de toda a humanidade, deixam com demasiada frequência na sombra este outro lado inquietamente da realidade que aclamam (Žižek, 2009, p. 58).

 

Chegamos a um nível de barbárie tecnológica, pois o desenvolvimento das redes comunicacionais apenas promoveu a facilidade das interações e a difusão de informações, mas não uma revolução radical da maneira de compreender a realidade, uma mudança axiológica, ética e epistemológica. Na era da virtualização comunicacional e sua inerente facilitação tecnológica, qualquer pessoa com acesso às redes pode se tornar um enunciador de ideias, um formador de opinião. Como grande parte da massa social, não obstante sua instrução educacional, comumente apresenta incrustados na sua consciência pensamentos reacionários, estereotipados e preconceituosos, desprovidos, em suma, de sofisticação, ponderação e senso crítico, as emissões comunicacionais hegemônicas na grande rede se fundamentam nesses traços unidimensionais, culturalmente empobrecidos, tornando-se assim a ágora da estupidez. Daí a importância da transformação do pensamento humano na era da Internet, pois o acesso coletivo aos meios de comunicação virtuais poderia favorecer uma genuína revolução social, política e cultural, assim como a quebra das estruturas enunciativas tradicionais, comandadas pelas grandes corporações midiáticas, lacaias dos poderes dominantes cristalizados no topo da pirâmide social. Pierre Lévy é um dos grandes entusiastas da inovação dos paradigmas comunicacionais modificados pela instauração da Internet:

 

O ciberespaço encontra-se hoje no epicentro do elo autocriador da inteligência coletiva da humanidade. Por causa da extensão não censurada das formas e das representações de todos os tipos que ele põe em concorrência, o ciberespaço representa a primeira emergência de uma noosfera – esfera do espírito e da inteligência coletiva – cuja midiasfera anterior era somente uma pálida prefiguração (LÉVY, 2001, p. 105).

 

Apesar do honesto otimismo do pensador, os mares eletrônicos da Internet permanecerão por muito tempo repletos de piratas comunicacionais e seus dejetos enunciativos, tendência infelizmente hegemônica, já que a emissão intelectual de baixa frequência ocorre mais usualmente do que a transmissão do pensamento esclarecido, emancipado dos preconceitos, do reacionarismo, das sombrias superstições. De nada adianta para o progresso da cultura da consciência crítica o modelo de pensamento reativo do homem-massa ter acesso ao mundo virtual, pois sua ação comunicativa usualmente é repleta de enunciações cujas bases psicológicas se fundamentam no ressentimento contra a vida e na flutuação de ideias e de paixões confusas, decorrentes de sua incapacidade de agir autonomamente na realidade concreta. Somente ocorrerá uma mudança efetiva nessas bases discursivas quando houver da parte do público comum a capacidade de compreender a potência libertária da rede virtual e assim lutar para a depuração dos traços anódinos propagados pela chusma grosseira que discursa sem antes submeter seus pensamentos ao crivo paciente da reflexão, em nome do estabelecimento de um nível de diálogo pautado pelo reconhecimento da alteridade dos interlocutores.

 

A vertente neopentecostal e a degradação da espiritualidade cristã

As grandes igrejas neopentecostais em verdade são empresas de capitalização disfarçadas, amalgamando em seus quadros a massa de devotos cristãos existencialmente desorientados e que encontram nas promessas de mudança imediata do padrão de vida um alento para seus tormentos pessoais. Essas igrejas-empresas são completamente afins ao espírito do capitalismo tardio, encarnando o processo mistificador do fetichismo da mercadoria, pois o fiel, desejoso de prosperar materialmente, faz de Deus o grande provedor das suas necessidades, estabelecendo para com a esfera sagrada uma relação comercial. Quanto maior a fé do devoto, maior sua capacidade de dar dinheiro para os cofres da igreja frequentada, para maior glória dos pastores, autênticos banqueiros.

O disparate desses grandes ladrões é tamanho que exibem nos seus cultos fetichistas os objetos de sucesso adquiridos pela graça de Deus, na verdade, pela ignorância coletiva dos fiéis ludibriados. Essas igrejas não são cristãs, pois negam radicalmente a incompatibilidade estabelecida por Jesus entre a vida evangélica e o estilo de vida defendido nestas igrejas. A força de trabalho dessa massa humana infeliz é duplamente espoliada, seja pela degradação profissional, seja pela rapinagem dos pastores neopentecostais: quanto mais esses são ricos, mais pobres são os seus seguidores. A Teologia da Prosperidade apenas favorece os pastores-banqueiros, furtadores das finanças alheias. Todos os bens materiais dos pastores-empresários são hipóstases da força de trabalho dos crentes miseráveis que, manipulados pelas palavras de ordem pronunciadas nos templos de capitalização da fé, vivenciam a alienação da consciência que suprime toda possibilidade de emancipação e empoderamento pessoal sobre as formas discursivas de opressão.

Proclamando-se inspirados pelo fogo do Espírito Santo, os pastores-idólatras negam todo verdadeiro preparo teológico conveniente para a função espiritual do sacerdócio e seus inerentes ofícios sagrados. A placidez discursiva cede lugar ao histerismo passional, disposição retórica conveniente para proporcionar a erupção dos afetos confusos dos fiéis fanáticos, facilmente manipulados pelas lideranças carismáticas dotadas mais de palavras de ordem do que de ideias sensatas e ponderadas. O palavreado do pastor neopentecostal é repleto de lugares-comuns, tautologias irritantes, conceitos confusos e virulência verbal, apresentando terríveis analogias com a fala fascista.

O imaginário neopentecostal é eivado de conotações materialistas extremamente vulgares, prometendo ao fiel seguidor, intelectualmente obtuso, as benesses divinas manifestadas concretamente por meio de automóveis luxuosos, a conquista da casa própria ou a ascensão profissional como um passe de mágica. O militarismo neopentecostal pretende mudar o mundo conforme sua axiologia ressentida e tacanha, errando justamente pelo fato de que antes não realizou qualquer esforço ético para primeiro modificar a si mesmo. Com efeito, é hipocrisia pretender condenar a falha do outro quando o próprio sujeito está repleto de defeitos morais muito mais corrosivos.

A intolerância neopentecostal embota de tal maneira a mentalidade do fiel que ele viola um dos mandamentos evangélicos mais radicais: o de não julgar. Nietzsche destrincha magistralmente a virulência do fanático cristão:

 

Não nos devemos deixar enganar: “Não julguem” [Mateus, 7,1] dizem eles, mas mandam ao inferno tudo o que lhes fica no caminho. Fazendo com que Deus julgue, eles próprios julgam; glorificando a Deus, glorificam a si mesmos; promovendo as virtudes de que são capazes – mais ainda, de que têm necessidade para ficar no topo –, dão a si mesmos a grande aparência de pelejar pela virtude, de lutar pelo predomínio da virtude (NIETZSCHE, 2007, p. 52)

 

Quando o ressentimento religioso neopentecostal realiza sua cruzada sanguinária contra os discursos axiologicamente diferentes, ele está se autoproclamando superior espiritualmente em relação àqueles, condenando-os moralmente por sua incapacidade de aceitar a dita verdade divina e por sua recalcitrante insistência no pretenso erro espiritual. Espinosa, em uma sublime explanação, apresenta palavras que são absolutamente convergentes com o problema apresentado:

 

A piedade, ó Deus imortal, e a Religião consistem em mistérios absurdos e são os que condenam absolutamente a razão, os que têm aversão e rejeitam o entendimento como coisa corrompida por natureza, são esses, suprema iniquidade, que passam por possuir a luz divina. Certamente que, se eles tivessem uma centelha que fosse da luz divina, não andariam tão cheios de soberba idiota e aprenderiam a honrar a Deus e distinguir-se-iam dos outros pelo amor, da mesma forma que agora se distinguem pelo ódio. Nem perseguiriam com tanta animosidade os que não partilham de suas opiniões; pelo contrário, sentiriam piedades deles (se é, de fato, a salvação alheia e não a própria fortuna que os preocupa). Além disso, se realmente tivessem alguma luz divina, ela ver-se-ia pela sua doutrina (ESPINOSA, 2003, p. 10).

 

Que fundamento epistemológico o fiel neopentecostal possui para se proclamar o detentor da verdade da fé em detrimento dos seguidores das demais orientações religiosas existentes? Essas igrejas nascem da decadência da ascese no processo de massificação social da era moderna, pois as antigas exigências de disciplina moral e espiritual estabelecidas como exercício de autossuperação das limitações sensíveis dos homens religiosos foram mitigadas em prol de um modo de vida adequado ao ritmo acelerado do capitalismo tardio.  Terry Eagleton afirma que

 

O sistema capitalista moderno é inerentemente ateísta. Ele rejeita Deus em suas efetivas práticas materiais e quanto aos valores e crenças aí implícitos, independentemente do que possam asseverar alguns dos seus apologistas […] Uma sociedade com gratificação empacotada, desejo administrado, política gerenciada e economia consumista não parece propensa a chegar ao tipo de profundidade em que indagações teológicas possam ser apropriadamente formuladas, assim como exclui questões políticas e morais de determinada profundidade. Qual é a serventia de Deus nesse tipo de cenário, se não como uma válvula de escape particular em um mundo desprovido de valor? (EAGLETON, 2011, p. 45).

 

Lutero empreendeu sua grande luta pela depuração do comercialismo religioso promovido pela corrupta Igreja Católica em sua venda de indulgências e nas suas práticas de simonia, e na atualidade vemos pastores-empresários cometerem as mesmas blasfêmias que os antigos sacerdotes.  Para obter a bênção especial que cura as doenças incuráveis, que fornece a prosperidade material, o sucesso profissional, o carro do ano magnetizado pela mão divina do pastor, o rechaço do mau olhado, dentre outros itens afins, o fiel deve pagar por ela, sem pestanejar, pois caso contrário a tão esperada dádiva divina não o alcançará. A situação é tão aviltante e indigna da razão humana que se chegou ao cúmulo de um pastor lascivo conceder bênçãos com seu pênis sagrado sobre as genitálias das tolas fiéis que aceitaram tal disparate. A que ponto chega o índice de ignorância da massa religiosa! O trabalho de reforma cultural é árduo e exige pessoas vigorosas de espírito para superar os males oriundos do lamaçal no qual chafurdam legiões de cegos seguidores alienados conduzidos por abutres que enxergam muito bem a fonte de lucratividade que os sustenta.

 

Considerações finais

É um perigo para a frágil democracia brasileira o avanço contínuo da bancada da Bíblia nos meios políticos, pois esses sectários inescrupulosos não hesitam em rasgar a laicidade constitucional em nome das suas verdades particulares, humanas, demasiadamente humanas, impondo seus disparates obscurantistas e reacionários para todos os cidadãos, despojando-as assim de sua própria cidadania. Já não basta a inerente corrupção que grassa essa bancada, soma-se aos seus grandes delitos o projeto fascista de fazer do Brasil um país monotonoteísta sectário, castrador de todas as demais possibilidades de expressão religiosa e submisso a uma forma de pensamento dissociada da saudável consciência esclarecida, que faz uso da racionalidade crítica e do desenvolvimento científico instrumentos para sua emancipação pluridimensional.

           

Referências bibliográficas

EAGLETON, Terry. O debate sobre Deus: razão, fé e revolução. Tradução Regina Lyra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.

ESPINOSA, Baruch. Tratado teológico-político. Tradução Diogo Pires Aurélio. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

LÉVY, Pierre. A conexão planetária: o mercado, o ciberespaço, a consciência. Tradução Maria Lúcia Homem e Ronaldo Entler. São Paulo: Ed. 34, 2001.

NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

______. O Anticristo/ Ditirambos de Dionísio. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

SLOTERDIJK, Peter. A loucura de Deus: do combate dos três monoteísmos. Tradução Carlos Correia Monteiro de Oliveira. Lisboa: Relógio d’água, 2009.

VOLTAIRE. Tratado sobre a tolerância. Tradução Paulo Naves. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

Žižek, Slavoj. A marioneta e o anão: o Cristianismo entre perversão e subversão. Tradução Carlos Correia Monteiro de Oliveira. Lisboa: Relógio d’água, 2006.

______. Violência: seis notas à margem. Tradução Miguel Serras Pereira. Lisboa: Relógio d’água, 2009.

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