Revista Espaço Ética

Editorial: Por que sociedades plurais e globalizadas ainda sofrem com a intolerância?

Por que sociedades plurais e globalizadas ainda sofrem com a intolerância?

Por Arthur Meucci[1]

Como citar: MEUCCI, Arthur. Editorial: Por que sociedades plurais e globalizadas ainda sofrem com a intolerância? in: Revista Espaço Ética: Educação, Gestão e Consumo. São Paulo, Ano III, N. 07, Jan./Abr. de 2016, ps. 7-8 – ISSN: 2359-5795

Palavras-chave: ética, intolerância, globalização, sociedade.

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Inicio este editorial pedindo desculpa aos leitores por um mês de atraso na publicação desta revista. O editor, os conselheiros e os autores tiveram um começo de ano atribulado, gerando atrasos em todos os níveis no processo editorial.

Porém, valeu a pena esperar por esta edição sobre a intolerância. Pensamos neste número no início de 2015, com o aumento das manifestações de preconceito social, racial e político nas ruas e redes sociais desde as eleições de 2014 para a presidência do Brasil. Publicamos o dossiê da edição número 5 analisando as correlações entre o nosso sistema de educação e os problemas enfrentados pela nossa democracia. Problemas que levaram a um afastamento da presidente eleita e que periga descambar para uma nova ruptura democrática no país, ameaçada constantemente por uma ditadura de calhordas reacionários e extremistas.

Sentimos que aquela edição não conseguiu analisar a gravidade dos estragos promovidos pelo discurso de ódio. Além disso, novos atentados terroristas na França, o ataque de neonazistas a refugiados sírios e o recente massacre contra homossexuais nos Estados Unidos nos fizeram repensar o tema da intolerância sob uma ótica globalizada.

Nesta edição, o dossiê conta com um importante artigo do professor e ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira. Ele esclarece o surgimento do discurso do ódio no Brasil como instrumento político orquestrado por uma elite que não aceitou a inclusão cidadã de uma população historicamente marginalizada e explorada.

Outro texto importante é o do notório pesquisador israelense Ilan Pappé, um dos fundadores da Nova História. Traduzimos seu clássico texto “An ‘Alleged’ Ethnic Cleansing?”, que analisa os conceitos de “genocídio” e “limpeza étnica” com base nas políticas sionistas de Estado contra os povos palestinos.

Renato Nunes Bittencourt analisa o espírito de intolerância imanente ao cristianismo, especialmente as religiões de orientação neopentecostal. Segundo o autor, a moralidade evangélica da teologia da prosperidade desempenha um papel fundamental para a legitimação radical da intolerância, pois seu ideológico conduz a um silenciamento e esquecimento dos grupos minoritários, dos oprimidos sociais, de todas as pessoas que sofreram estigmatização por seus caracteres divergentes em relação aos padrões homogêneos estabelecidos pela elite.

Partindo de um mal-estar gerado pelo poder patriarcal do pensamento cristão, o pesquisador Eduardo de Campos-Garcia analisa poeticamente as intolerâncias discursivas de segmentos religiosos contra a existência do feminino e dos gêneros sexuais que divergem da figura masculina heterossexual. Seu texto, articulado com semiótica e metarreferências, elabora os problemas com profundidade.

Na seção de artigos livres, Bruno Tomio Goto descreve os problemas éticos que muitos acadêmicos e estudantes de pós-graduação enfrentam ao escreverem e publicarem seus artigos. Ana Lesia Tavares analisa os problemas éticos e legais envolvidos nos pedidos de recusa de transfusão de sangue por religiosos. Evelin C. Cadrieskt e Flávio Tonnetti refletem sobre as experiências oriundas da utilização de tecnologias assertivas por pessoas portadoras de necessidades especiais.

O trabalho de Renato Santos avalia as percepções sobre aquilo que os agentes de mercado costumam identificar como comportamentos “corretos” e “errados” em importantes dilemas éticos vividos no cotidiano do mercado. Sua sociologia corporativa mostra como a luta pelo poder nas corporações é definidora dos valores de moralidade. O artigo do professor Rogério Calia considera a difusão das práticas de meditação promovidas por departamentos de desenvolvimento pessoal, com ênfase especial na modalidade mindfulness.

Na seção de colunas, o especialista Renato Bulcão de Moraes aponta que as estruturas da intolerância social presentes em nossa escola são lapidadas nas trajetórias escolares baseadas na coerção dos estudantes e de inversões nos juízos de valores. O advogado Raul Bonfim Zarob de Moraes apresenta os problemas na orientação ética das tropas que prestam serviços às Nações Unidas.

Na seção religiosa, o Pe. José Ulisses apresenta uma perspectiva católica para o aumento da intolerância em nossa sociedade. A pedagoga espírita Dora Incontri faz uma revisão dos textos de Allan Kardec sobre o momento de intolerância vivido pelos brasileiros.

 

Esperamos que os nossos leitores façam bom proveito desta bela safra de artigos acadêmicos, inscritos em um momento histórico importante – seja pelo cenário político que vivemos, seja pelos autores de renome que aceitaram contribuir com essa discussão.

Boa leitura!

 

[1] Bacharel, licenciado e mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo, doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Mackenzie, psicanalista pelo IBCP (Sinpesp n. 0889). Professor do Departamento de Educação da Universidade Federal de Viçosa e editor da Revista Espaço Ética: Educação, Gestão e Consumo. arthur@espacoetica.com.br

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