Revista Espaço Ética

A teologia católica e a ética no consumo, por José Ulisses Leva

A TEOLOGIA CATÓLICA E A ÉTICA NO CONSUMO

José Ulisses Leva[1]

Como citar: 

LEVA, José Ulisses. A teologia Católica e a ética no consumo. in: Revista Espaço Ética: Educação, Gestão e Consumo. Ano I, N. 01, jan./abril de 2014, ps. 164-169 – ISSN: 2358-0224

Palavras-chave: Ética. Consumo. Catolicismo. Teologia

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Introdução

Qual é o papel da PUC na cosmopolita cidade de São Paulo? Qual é o papel da teologia na PUC de São Paulo? Qual é a voz da teologia na pluralidade de vozes na imensa megalópole de todas as gentes? O que a teologia tem a dizer sobre a ética no consumo?

 

A universidade e a teologia

A Igreja Católica no século XIII motivou o saber e fez nascer nos mosteiros e residências episcopais a organização do que hoje chamamos de universidade. A teologia fazia parte da gênese da universidade. Ao lado do direito, da medicina e das artes, a teologia marcava sua presença junto aos jovens de época ávidos pelo conhecimento e pelas transformações do meio que habitavam. A universidade é a soma de todos os saberes. Ciências humanas e ciências técnicas se completam. Separadamente estudadas e ministradas, elas esfacelam o conhecimento humano.            O século XIII serve como referência ao apresentar a universidade como unidade dos saberes. O campus da universidade é como o mundo plural e todos os saberes em conjunto facilitam a compreensão dos enigmas para melhor traduzi-los e buscar soluções. A teologia se apresenta e propõe sua colaboração para o bem comum.

 

 A teologia na sociedade

O Concílio Ecumênico Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, nos indicou o papel do Magistério da Igreja, os fundamentos do teólogo e sua missão de ensinar inspirado sempre nas Sagradas Escrituras e na Tradição Apostólica: “Entre as vocações suscitadas na Igreja pelo Espírito, distingue-se a do teólogo, que em modo particular tem a função de adquirir, em comunhão com o Magistério, uma compreensão sempre mais profunda da Palavra de Deus contida na Escritura inspirada e transmitida pela Tradição viva da Igreja” (CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, 2007, p. 7). “Visto que o objeto da teologia é a Verdade, o Deus vivo e o seu desígnio de salvação revelado em Jesus Cristo, o teólogo é chamado a intensificar a sua vida de Fé e a unir sempre pesquisa científica e oração” (CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, 2007,  p. 8).

O papa Francisco, no primeiro ano do seu pontificado, resgatou duas palavras valiosíssimas para apresentar a compreensão que ele tem de Igreja. As palavras colegialidade e misericórdia remontam ao Concílio Ecumênico Vaticano II e ao itinerário do seu Magistério. O exemplo e as palavras do papa Francisco servem de luzeiro para o exercício do magistério que nós, professores e professoras, exercemos na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da PUC-SP.

Desde sempre o grão-chanceler e cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer, tem demonstrado afinco para com a PUC. Ele tem visto a universidade como um espaço concreto de apresentar os valores do Reino de Deus anunciados por Jesus Cristo à Sua Igreja e a todos quantos se relacionam com ela. Precisamos sempre de conversão pastoral e metodológica, para presenciarmos Deus entre os jovens universitários. “No decorrer dos séculos a teologia constitui-se progressivamente em verdadeiro e próprio saber científico. É, portanto, necessário que o teólogo esteja atento às exigências epistemológicas da sua disciplina, às exigências do rigor crítico, e consequentemente à verificação racional de todas as etapas da sua pesquisa” (CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, 2007, p. 9). Fundamentalmente, o cardeal Dom Odilo Pedro Scherer nos encoraja a ser protagonistas e formadores de opinião; nos incentiva a uma presença contínua e marcante nos campi da universidade e nos conclama às continuadas pesquisas para o bem da Igreja e da sociedade hodierna.

Introdução ao Pensamento Teológico e a ética

É verdadeira a premissa da suposta ausência de Deus na sociedade? Por que esta ausência se dá? Como teólogos, falamos e pensamos a partir dos conceitos de Deus?  A ausência de Deus se dá quando nos omitimos ou nos fechamos. A disciplina Introdução ao Pensamento Teológico (IPT) quer ser um diálogo com o mundo contemporâneo. Mesmo no mundo plural em que vivemos, muitos querem dialogar. Todos nós queremos ouvir e ser ouvidos; queremos propor e receber propostas. A teologia deve continuamente prestar o serviço de unidade à luz do Magistério da Igreja numa relação dialogante com a sociedade, contribuindo eficazmente com o bem comum.

Nos campi Ipiranga e Santana, a Faculdade de Teologia produz os ensaios teológicos e protagoniza o diálogo com a sociedade em transformação. Nos demais campi da universidade nós, professores e professoras de Teologia da PUC-SP, estamos presentes junto às demais faculdades, lecionando a disciplina IPT e Ética. No exercício do magistério, percebemos a posição clara dos alunos das demais faculdades em relação aos seus estudos e conhecimentos. A universidade é composta na pluralidade das ideias e na diversidade, de opiniões. Em suma, para um diálogo maduro e seguro, necessitamos respeitar o outro. Incansavelmente os coordenadores da IPT insistem na parceria de saberes.

 

A ética no consumo

Trabalhando IPT e Ética com os universitários da PUC-SP nos campi, percebi seu interesse quando da referência da teologia com a ética por meio das suas epistemes. Tenho a oportunidade de estar com alunos dos cursos de administração e de marketing. Com os de administração, trabalho o texto do professor Amadeu de Farias Cavalcante Junior, “Ética e administração: contextualizando a discussão sobre os desafios no mundo dos negócios”. Com os alunos de marketing, utilizo o texto de André Cauduro D’Angelo, “A ética no marketing”. Eles se mostram atentos porque inicio meu trabalho pela paixão que eles demonstram pelos estudos. Eles escolheram as faculdades e seu campo de saber. Desenvolvo com eles o conceito de mitos e religiões. Aprofundo a referência de Deus e de valores humanos. Campo aberto para apresentar a ética. Perguntas básicas que utilizo: Qual é o seu olhar como profissional de marketing e de administração? Qual é o seu olhar como consumidor? Qual é a distância entre as prateleiras dos produtos que você vende e os produtos que você compra? Quanto de ética você utiliza no seu trabalho? O que a ética representa para você como consumidor? Por meio dos artigos propostos e das orientações da teologia e da ética, os alunos buscam respostas para as questões de fundo apresentadas. Tanto é possível falar de ética com os alunos quanto buscar reflexões amadurecidas, comprometidas e com responsabilidade profissional.

 

Conclusão

Na cosmopolita São Paulo do século XXI é mister ouvir na pluralidade o turbilhão de gente e o alarido de muitas vozes e muitos posicionamentos. É imprescindível, também, ouvir a voz da teologia, assegurada pelo Magistério da Igreja e orientada pelo grão-chanceler da PUC e cardeal arcebispo de São Paulo. É nobre que as pessoas e os grupos manifestem seus pensamentos. Afinal, somos diferentes uns dos outros, e expressamos diferentemente nossos pontos de vista. A teologia tem de escutar atentamente as vozes e, também, tem muito a dizer à nossa sociedade. Faz parte do perfil do teólogo estar em diálogo com a sociedade, se manifestar quando solicitado e apresentar sua opinião acerca de quaisquer enunciados. A teologia na PUC-SP não somente se expressa, mas está em sintonia com alunos de todas as faculdades que compõem a universidade, trabalhando e produzindo argumentos científicos para o bem da sociedade. É fundamental que os teólogos falem da ética no consumo, como também proporcionem debates valiosos e oportunos com a sociedade hodierna.

 

Referências bibliográficas

CAVALCANTE JUNIOR, A. F. Ética e administração: contextualizando a discussão sobre os desafios da ética no mundo dos negócios. Adcontar, Belém, v. 5, n. 1, p. 15-34, jun. 2004.

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Instrução sobre a vocação eclesial do teólogo. 5. ed. São Paulo: Paulinas, 2007.

D’ANGELO, A. C. A ética no marketing. Revista de Administração Contemporânea, Curitiba, v. 7, n. 4, p. 1-13, out./dez. 2003.

 

[1] Mestre em Filosofia Dogmática pela Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção e doutor em História Eclesiástica pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Itália). É professor de História Eclesiástica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. E-mail: juleva@pucsp.br

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