Revista Espaço Ética

Educação além do consumo e o exercício da liberdade, por Flávio Tonnetti

Educação além do consumo e o exercício da liberdade

Flávio Tonnetti[1]

Como citar: 

TONNETTI, Flávio. Educação além do consumo e o exercício da liberdade. in: Revista Espaço Ética: Educação, Gestão e Consumo. Ano I, N. 01, jan./abril de 2014, ps. 134-142 – ISSN: 2358-0224

Palavras-chave: Educação. Consumo. Liberdade. Tecnologia

Artigo em PDF

 

Introdução

Num mundo dominado pela economia, as relações humanas tendem a ser mediadas por aspectos financeiros e a experiência de vida passa a ser regida pelo dinheiro. A moeda, como valor de troca universal, funciona como interface entre as diferentes atividades humanas e a educação, inserida na trama das relações sociais, não se furta a ser entendida a partir dessa perspectiva.

Professores, entendidos em sua atuação como trabalhadores, como prestadores de serviço ou como profissionais liberais — variadas formas de compreender a atividade laboral da docência conforme a ênfase que se dê a ela — vendem seu conhecimento e seu tempo para a formação de outras pessoas. Pública ou privada, a escola torna-se então uma empresa que contrata profissionais para fornecer serviços a uma população que tem demanda por eles. Se for privada, seu objetivo principal será o lucro, ainda que seus mantenedores se empenhem em oferecer um serviço educacional de qualidade — condição nem sempre necessária para um mercado que nem sempre demanda por boa formação.

A educação torna-se então um produto e as instituições escolares tornam-se empresas concorrentes num agressivo mercado de consumo. O marketing e a publicidade passam a ser as principais ferramentas de comércio em um mercado educacional cada vez mais massificado.

Por vezes esquecemos que a educação, como experiência humana, é anterior à invenção da empresa capitalista. E, com mais frequência ainda, esquecemos que a educação é anterior até mesmo à instituição da escola. Por conta disso, na lógica do consumo em que estamos imersos, esquecemos que podemos exigir mais da educação como projeto ético-político.

Acostumados a enxergar o mundo pela ótica do consumo e não pela ótica da cidadania, desejamos que a educação seja melhor ou mais bem-acabada, tomando-a pela noção de produto, quando, em vez disso, poderíamos exigir dela que fosse mais plena como direito, e que fosse amplamente difundida e desfrutada por toda a sociedade.

Um bom produto é algo pronto, que se fez por outro. Quando entendemos a educação por meio desta lógica perdemos dela uma dimensão importante que está presente na ideia de formação. Pensar a educação como formação pressupõe quebrar a ideia de educação como entrega de uma coisa feita por outra pessoa, já que formação envolve a noção de processo partilhado e de procedimento, de algo que se faz ao longo de um período e que não pode ser reduzido a um único momento. Pensada como formação e não como produto, a educação é uma obra aberta, é o contrário de um objeto pronto. Vista assim, não podemos pensá-la na ordem da aquisição, em vez disso devemos pensá-la a partir da noção de empoderamento. Porque sou autor e coautor dos processos dos quais participo posso manejá-los em conjunto para atingir diferentes resultados de acordo com as minhas reais necessidades e as necessidades daqueles que compartilham comigo uma experiência de vida.

O conceito de qualidade, frequentemente utilizado para avaliar produtos, muda então radicalmente de perspectiva: qualidade em educação é diferente de qualidade na linha de produção. Avaliação da qualidade quando é voltada para objetos consiste em avaliar o quão semelhante pode ser um item produzido em comparação ao projeto que foi feito dele. Mas se a educação não é um objeto, não é um produto acabado, mas um processo, como avaliar sua qualidade? Imagino que uma possibilidade seja pensar na ideia de projeto como projeção. Educar também significa ter em mente um ideal, também significa projetar algo e realizá-lo no futuro. Mas como projétil, é algo que se lança adiante prevendo negociações e incertezas. Educar não é tiro ao alvo. Quando educamos, projetamos algo para um futuro incerto e dinâmico, porque o futuro relacional feito por pessoas é mutável, já que as pessoas se transformam cotidianamente. Uma das saídas para pensar qualidade em educação seria avaliar a adequação do resultado final ao projeto pretendido no início. Um modo de avaliar uma escola ou uma universidade seria avaliar, ao final do processo, aquilo que se prometera no início. Numa perspectiva de consumo, equivaleria a avaliar se aquilo que foi prometido nos contratos e panfletos se assemelha ao que foi entregue como resultado final no balcão de serviços.

Durante muito tempo essa foi a perspectiva por meio da qual pensei a educação inserida na perspectiva do consumo. No interior de uma perspectiva liberal, em que diferentes e inúmeros projetos podem coexistir, cada escola deve decidir qual é o seu ideal de projeto. Levá-lo a cabo depende das pessoas envolvidas em cada comunidade escolar, o que inclui gestores, funcionários, pais e alunos. Ainda acredito na educação na perspectiva da pluralidade que pode estar embutida numa lógica de mercados e consumos. E pensar a educação a partir da lógica liberal é um modo de fazer veicular determinadas ideias usando uma linguagem que possui apelo amplo num campo social dominado pela lógica dos negócios.

Mas por trás dessa linguagem empresarial é preciso deixar transparecer a convicção de que não podemos reduzir a educação ao consumo — embora o consumo também faça parte de nossa experiência de vida. Educar é transmitir e atualizar um legado do passado, um legado de práticas, conhecimentos e valores. Como experiência humana, a educação não pode ser reduzida à inércia das coisas e não pode ser reduzida à ideia de produto.

Pensar o consumo na educação ou a educação como consumo pode nos levar, por vias muito contraditórias, a abrir mão da própria ideia de consumo, pois ao nos debruçarmos mais seriamente sobre o significado real de educar somos levados a abandonar a relação assimétrica existente entre vendedor e comprador e colocar a educação numa relação mais simétrica que só enxergamos no interior da cidadania. A educação como cidadania traz em si um projeto de civilização cujo pressuposto é o acesso aos direitos da vida pública, que operam num espaço social e simbólico com igualdade, num equilíbrio de interdependência e autonomia. Já o consumo é algo que diz respeito, sobretudo, àquilo que se pode reter na vida privada. Se consumo é para dentro, educação é para fora. O consumo é para mim, educação é para o outro e para todos.

Dizer que educação é para todos significa um pouco mais do que dizer que a educação deve ser um direito para todos — embora também desejemos isso. Educação para todos significa que a educação, como projeto civilizacional, contribui para a formação de um indivíduo projetado num espaço público. E a educação faz parte da própria construção do espaço público, faz parte da própria construção da alteridade, da ideia de um outro no interior de uma cultura.

Talvez por isso os Estados tenham tanta preocupação com educação como coisa pública, para formar esse indivíduo público e para construir esse espaço cultural e social partilhado. Quando percebemos isso, compreendemos a importância da educação na constituição da cidadania, percebemos a importância das instituições escolares na construção social. Sua importância como política de Estado e construção da coesão social. Também fica fácil perceber o cuidado que devemos ter para que a educação não se converta em ferramenta de doutrinação e controle, de alienação e esvaziamento, coisas que a educação ou a falta de educação também podem proporcionar.

Como projeto social amplo, criam-se consensos sobre o que consideramos importante no interior de nossa própria cultura, criam-se consensos mais ou menos disputados sobre quais podemos considerar como sendo os nossos bens culturais mais valiosos a ponto de que sejam transmitidos adiante para as novas gerações.

No interior das instituições escolares, surgem os currículos que são disputados e geridos pelos gestores da educação e recoloca-se, por vias muito diferentes a quase sem se dar conta, a lógica do consumo na condução dos projetos educacionais, no que toca às leis e diretrizes. Se a tônica é a relação econômica, é natural que possamos ver a cultura a partir da ideia de patrimônios e bens, por meio da ideia de herança, e a escola como sendo a instituição responsável pela transmissão não litigiosa dessa herança.

Mas a própria ideia de herança se origina na lógica do acúmulo e da transmissão de objetos; é, portanto, uma objetivação da experiência humana. O currículo, como arrazoado de coisas, é uma estrutura imposta, uma prisão — não é à toa que muitas vezes seja chamado de grade disciplinar. Uma educação do acúmulo e da imposição impede o nascimento de um filho pródigo ou a prática da caridade que desperdiça e permite usufruir hoje dos bens acumulados anteriormente. A escola, mesmo pensada na perspectiva mais liberal ou mais anárquica, seja pensada como cidadania ou como consumo, poucas vezes consegue se livrar de apresentar a educação como um fardo — o legado cultural é sempre um baú muito pesado que as novas gerações precisam carregar sobre as costas.

Se assumirmos a educação como obra aberta e partilhada, abrindo mão de uma finalidade utilitarista, que se concentre na prática intergeracional e na experiência partilhada de saberes, romperemos não só com a lógica do consumo, mas também inseriremos no interior da própria cidadania uma experiência radicalmente nova de liberdade.

Embora isso possa parecer uma proposição difusa, utópica ou de pouca aplicação prática, ela não o é. Escolas ao redor do mundo têm rompido com o tradicional modelo da escola de massa que, como sabemos, foi um modelo criado para doutrinar e enquadrar multidões para o trabalho nas fábricas. A escola moderna de massas que temos hoje foi uma invenção levada a cabo, sobretudo, no século XIX para atender aos desafios de instrução do século XVIII. Essa escola, com as necessidades e meios de que dispomos hoje, nos serve cada vez menos.

Embora tenham sido criadas como tecnologia social para prover as massas de uma educação antes apenas reservada às elites — portanto, como realização de um projeto iluminista de democratização dos saberes humanos —, as escolas como instituições vão hoje perdendo o seu sentido, na medida em que já não necessitamos da reunião de pessoas num mesmo espaço confinado em torno de uma pessoa que fala e um quadro-negro. Espaços de confinamento são cada vez menos adequados para que o encontro intergeracional entre professores e alunos ocorra. A escola precisa se reinventar a ponto de se tornar uma antiescola, um lugar aberto que deixe à vontade docentes e estudantes, para que decidam juntos como, quando e com que objetivos possam se pôr em contato. Ninguém entrega nada pronto a ninguém, não há consumo, há congraçamento e festa. Uma escola em que possa haver a possibilidade do jogo e da brincadeira.

Tecnologias digitais colocam a comunicação da experiência humana num outro patamar. Apropriadas pela educação, elas podem contribuir para essa descentralização dos saberes, para a multiplicidade dos currículos, para a conformação e para a prática de novos ambientes escolares. Após a Escola da Ponte, José Pacheco, o educador português, colabora com uma escola montada sob a tenda de um circo, com diferentes ateliês em torno, organizados de modo que as crianças possam escolher em que projeto trabalhar. A educação pensada desse modo, como exercício da liberdade, escapa à lógica do consumo e da produção e poderá reinventar a ambos — consumo e produção — à medida que capacita as novas gerações, por meio do exercício da liberdade dos saberes, a serem capazes de produzir os objetos que desejem usufruir. E não se trata apenas de pensar a educação de crianças nessa lógica, mas toda a estrutura de ensino, incluindo aí as universidades com suas pós-graduações.

As novas tecnologias digitais podem certamente contribuir para essas experimentações, graças ao potencial de descentralização e de diálogo embutido em boa parte delas. Computadores e dispositivos móveis de convergência de mídias, quando conectados em rede, contribuem para a troca partilhada de experiências e para a implementação de ações conjuntas.

Mas é preciso que não gerem o avesso daquilo que pretendemos — se tomados como fetiche, recolocam a lógica de consumo no interior da educação, que passa a vender promessas por meio do acesso aos bens tecnológicos. Como produtos, os bens tecnológicos podem nos auxiliar muito, mas também podem desviar o foco de nossa atenção pedagógica, afinal, o mercado da tecnologia também vive da obsolescência, de dispositivos que se travestem em novas formas para transformar o útil em inútil, o novo em velho, o bonito em feio, para alimentar, assim, o mercado com novos produtos que serão devorados por consumidores sempre emergentes e cada vez mais insaciáveis. Não é fácil inverter as lógicas a partir do interior delas mesmas.

 

[1] Bacharel, licenciado e mestre em Filosofia e doutorando em Educação, ambos pela Universidade de São Paulo. Coordenou cursos de educação a distância (EaD) na rede privada e atuou como professor de Ensino Médio nas redes pública estadual e privada. Edita o site ensino.blog.br

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