Revista Espaço Ética

Futebol, violência e consumo: Uma reflexão Ética, por Felipe Lopes

FUTEBOL, VIOLÊNCIA E CONSUMO: UMA REFLEXÃO ÉTICA

 Felipe Lopes[1]

Como citar:
LOPES, Felipe. Futebol, Violência e Consumo: Uma reflexão ética. in: Revista Espaço Ética: Educação, Gestão e Consumo. Ano I, N. 01, jan./abril de 2014, ps. 20-34 – ISSN: 2358-0224

Resumo: Fruto de uma pesquisa de campo que durou quatro anos, o autor fez uma radiografia dos discursos identitários e morais da torcida organizada Gaviões da Fiel, ligada ao Corinthians Futebol Clube. Neste artigo ele mostra como a violência no futebol não é irracional e se posiciona de forma subversiva à “moral capitalista” de elitização do esporte e, ao mesmo tempo, legitima as ações excludentes dos dirigentes e governantes aos torcedores de baixa renda.

Palavras-chave: Consumo. Futebol. Moral. Violência.

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Introdução

Nem guerra entre as torcidas; nem paz entre classes.

(Ultras Resistência Coral)

Vai chegar a hora em que as torcidas entenderão o poder que possuem para transformar a realidade do nosso futebol.

(Gaviões da Fiel)

Todo grupo social possui uma moral, ou seja, um conjunto de valores relativos ao bem e ao mal. Que define o que pode e o que não pode. O comportamento legítimo e o ilegítimo (CHAUÍ, [1994] 2012). Tais valores, evidentemente, são sempre arbitrários, isto é, poderiam ser outros. Afinal, não estão nas “coisas em si”, naquilo que é valorado. Um mesmo comportamento pode ser visto como inaceitável para determinado grupo social e plenamente aceitável para outro. Pode ser moralmente negativo em um determinado período histórico e positivo em outro. A título de exemplo: vista por muito tempo como um eficiente instrumento pedagógico, hoje em dia a palmada é tida por muitos como uma violência inaceitável contra a criança. Esse caráter social e histórico da moral, no entanto, raramente vem à luz. A moral tende a ser naturalizada. Infelizmente, a própria ciência, muitas vezes, contribui para isso. Não raro, por exemplo, justifica-se, dentro da própria universidade, a desigualdade de gênero pelas características fisiológicas dos homens e das mulheres. Além de naturalizada, a moral tende a ser vista como algo permanente e imutável. Quem nunca escutou, por exemplo, algo do tipo: “as coisas são assim porque sempre foram assim”?

Contra a naturalização e a eternalização da moral, a ética. Esta pode ser definida como o processo reflexivo que discute, problematiza e interpreta o significado dos valores morais (CHAUÍ, 2012). E é justamente um processo desse tipo que buscarei levar a cabo aqui. Mais concretamente,buscarei refletir sobre os valores morais que estabelecem a violência (especialmente física) produzida no contexto do consumo do futebol profissional, bem como aqueles que são por ela mantidos.Para tanto, dividirei o texto em duas partes: num primeiro momento, buscarei mostrar que, diferentemente do que diz o senso comum, a referida violência não é sem propósito, ou seja, irracional. Pelo contrário, ela possui explicações psicológicas, antropológicas e sociológicas, que indicam que ela é legitima dentro de uma dada cultura, que institui a tolerância à dor como um princípio moral. Num segundo momento, buscarei mostrar que, ainda assim, ela não pode ser vista como um ato de resistência, que desafia o atual processo de mercantilização, elitização, espetacularização e militarização dos eventos futebolísticos. Pelo contrário, ela contribui para a fragmentação dos grupos dominados no universo do futebol e para deslegitimar uma cultura popular de torcer. Nesse sentido, ela está a serviço dos interesses e valores dos grupos dominantes. De sua moral, portanto.

 

I – A moral que fundamenta a violência produzida no contexto do consumo do futebol profissional

         Existem diversas correntes teóricas que explicam a violência no futebol. Naturalmente, em poucas páginas, é impossível abordar todas elas. Menos ainda, as diferenças entre cada uma delas e as controvérsias que essas diferenças suscitam. Portanto, a discussão realizada aqui será, obviamente, seletiva, e deixará de lado muitos pontos que mereceriam uma discussão mais aprofundada. Embora desenvolvidas em outro contexto, as reflexões levadas a cabo por alguns(mas) autores(as) argentinos(as) (ALABARCES, [2004] 2012; MOREIRA, 2013; ZUCAL, 2010) podem ser pertinentes para pensar o contexto brasileiro devido à atenção dada por eles(as) aos pontos de vista dos atores engajados na violência em questão e devido à proximidade geográfica e, em certa medida, cultural dos dois países. Feito esse esclarecimento, vamos lá: quais são os valores morais que fundamentam a violência produzida no contexto do consumo do futebol profissional? Por que alguns grupos de torcedores adotam um estilo de torcer e de vida que, muitas vezes, coloca a sua própria vida em jogo? O que explica aquelas cenas de violência explícita que impactaram a opinião pública na última rodada do Campeonato Brasileiro de 2013, quando torcedores do Atlético Paranaense e do Vasco da Gama se envolveram em uma briga generalizada nas arquibancadas da Arena Joinville, em Santa Catarina?

“Aguante”. “Hay que tener aguante”, costumam dizer os torcedores hispano-americanos. Ou seja, é preciso aguentar. Aguentar a dor e o sofrimento. Para os integrantes das hinchadas (ou, como também são chamadas, das barras[2]), mostrar tolerância à dor é uma forma de mostrar virilidade. De afirmar-se “homem de verdade”. Nesse sentido, a referida tolerância é uma forma privilegiada de expressar uma “masculinidade agressiva”, que também orienta a ação de alguns jovens torcedores organizados brasileiros, ao menos os mais violentos (MONTEIRO, 2003). De acordo com Zucal (2010), a tolerância à dor pode ser demonstrada de diversas formas: por meio das longas viagens para acompanhar o clube apoiado, pela ingestão de drogas ou de (altas) doses de bebida alcoólica ou, principalmente, pela participação em combates corporais contra torcedores adversários ou contra a polícia.

Não é de se estranhar que o ideal de corpo (masculino) no contexto das hinchadas é o robusto, gordo e marcado. Afinal, a robustez é percebida como uma poderosa arma em tais combates. Prova disso é que, para não parecer uma torcida fisicamente frágil, as lideranças dessas torcidas costumam arrancar os torcedores mais miúdos dos alambrados, permitindo apenas que os mais fortes fiquem dependurados. Por sua vez, o excesso de gordura opera como um signo da capacidade de aguentar a ingestão de litros e mais litros de cerveja e vinho. Inclusive, uma prática comum entre os integrantes das hinchadas é a de levantar a camisa no meio da multidão, a fim de justamente mostrar suas grandes barrigas como sinal de virilidade. Já as cicatrizes são valorizadas porque constituem uma espécie de “prova viva” da participação em combates corporais (ZUCAL, 2010). Quanto maiores, mais valorizadas elas são. Assim, ao mesmo tempo em que é uma moral (“é preciso aguentar a dor”), o princípio do aguante é, também, uma estética (ALABARCES, 2012). Afinal, ele promove toda uma forma de representar, construir e movimentar o corpo. Peitar o torcedor rival e não correr em uma briga, por exemplo, são gestos que distinguem os “torcedores de verdade” dos demais. Já o frio e a chuva são motivos para se cantar mais alto nos estádios, não para abandonar as arquibancadas. Nestas, deve-se ficar até final do jogo, ainda que a polícia atire bombas de gás lacrimogêneo ou a torcida rival, pedras.

Além de ser uma estética, o princípio do aguante é uma retórica. Afinal, ele mobiliza todo um conjunto de discursos, expressões e formas de falar (ALABARCES, 2012). As histórias de combates corporais são, por exemplo, tema recorrente nas hinchadas. Seus integrantes costumam vangloriar-se de seus “feitos” contra os torcedores adversários e contra a polícia. No entanto, contar tais histórias não basta; para se provar possuir aguante é preciso participar de combates corporais (e resistir ao adversário) diante de seus pares. Uma vez que ela tem de ser permanentemente provada, pode-se afirmar que a virilidade dos integrantes das hinchadas está sempre em xeque, podendo, a qualquer instante, ser negada. Uma fuga injustificada, por exemplo, “desmoraliza” toda uma trajetória “bem-sucedida” de enfrentamentos físicos. Da mesma forma, o uso injustificado da arma de fogo. Nos dias de hoje, inclusive, embora seja a principal causa de mortes no futebol brasileiro (NERY, 2012) e argentino (SUSTAS, 2011), o uso de tais armas é objeto de intensas disputas morais. De acordo com Moreira (2013), enquanto os integrantes mais velhos das hinchadas defendem, ao menos no plano discursivo, o referido uso apenas como meio de resguardar a própria vida e o patrimônio da torcida (bandeiras, faixas, instrumentos musicais etc.), os mais jovens tendem a legitimá-lo em outras situações.

Mas, voltando à pergunta inicial, por que alguns torcedores envolvem-se sistematicamente em ações violentas? Antes de responder à questão, é preciso destacar que toda resposta deve “[…] respeitar as diferenças culturais e suas particularidades, sendo necessária a realização de estudos locais” (REIS, 2006). Feita essa ressalva, indico, sem nenhuma pretensão de exaustividade, algumas respostas que me parecem convincentes. Em primeiro lugar, porque o envolvimento em tais ações pode produzir uma excitação agradável. Giullianotti (2002, p. 77) observa, por exemplo, que “os hooligans referem-se constantemente ao ‘zumbido’ emocional opressor que experimentam quando ‘fervem’ contra os adversários[3]”. Em segundo lugar, porque, frequentemente, as condições dos estádios de futebol são péssimas (sobretudo na África e na América do Sul) e a atuação da polícia, inaceitável. Assim, conforme reconhece o sargento Graham Naughton, especialista em hooliganismo na Football Intelligence Unit, “[…] quando se tratam os torcedores como animais, eles acabam por se portar como animais” (apudFRANCO JÚNIOR, 2007, p. 194). Em terceiro lugar, porque os meios de comunicação frequentemente dramatizam o jogo, afirmando coisas como: “é ganhar ou morrer” (ALABARCES, 2012), que intensificam a frustração em caso de derrota e mobilizam a ideia de que o futebol é uma guerra e a torcida adversária, um inimigo a ser eliminado.

Em quarto lugar, porque, quando não há uma resposta efetiva do Estado, cria-se uma sensação de impunidade, que acaba alimentando a violência (MURAD, 2012). Todavia, contrariando o senso comum, é preciso destacar que a impunidade não deve ser vista como o principal fator explicativo. Afinal, o Estado, com frequência, não possui legitimidade diante dos torcedores violentos. Prova disso é que, de acordo com Zucal (2010), não existem denúncias envolvendo integrantes das hinchadas argentinas. Assim, no caso de uma derrota em um combate, é preciso, para recuperar a “honra” da torcida, contra-atacar em outra ocasião. Inclusive, é bom recordar que importantes lideranças dessas torcidas, como as da La Doce, do Boca Juniors, foram presas (GRABIA, 2012). E isso, paradoxalmente, produziu mais violência, dado que se criou uma disputa violenta pelo poder[4]. Em quinto lugar, porque, em países como o Brasil e a Argentina, o controle da circulação de armas de fogo é relativamente frágil. São de conhecimento público, por exemplo, as denúncias relativas à entrada de armas contrabandeadas de países vizinhos. Em sexto lugar, porque, embora relativamente autônomo, o universo do futebol não é uma ilha dentro da sociedade. Sendo assim, em sociedades com altos índices de violência, como a brasileira, seria de se estranhar que não houvesse violência no futebol, ainda que essa violência tenha, repito, especificidades e esteja presente em sociedades menos violentas.

Em sétimo e último lugar, porque, conforme tentei mostrar anteriormente, o envolvimento em combates físicos traz respeito para alguns torcedores. Respeito que, por sua vez, pode se converter em valiosos recursos materiais. Na Argentina, por exemplo, há sérias denúncias de que, graças à relação (clandestina) com dirigentes esportivos, autoridades policiais e políticos, as lideranças das hinchadas controlam, entre outras coisas, a revenda ilegal de ingressos, o mercado de pirataria de camisas de seus clubes e a gestão ilegal dos arredores dos estádios em dias de jogos (GRABIA, 2012). Todavia, embora significativa, essa dimensão instrumental da violência não deve apagar sua dimensão moral. A violência no futebol não é só uma forma de inserir pessoas em uma rede de favores e de conseguir dinheiro. Ela faculta a participação em uma comunidade moral, que tem no aguante seu principal valor e princípio orientador. Ao permitir tal participação, essa violência opera, portanto, como um importante instrumento de posicionamento identitário[5], capaz de garantir algum tipo de pertencimento — algo que instituições tradicionais (como os sindicatos, os partidos, a escola, o mundo do trabalho etc.) não conseguem mais fazer como antes. Nesse sentido, ela possui uma estreita ligação com o vácuo identitário deixado pela atual desestruturação dessas instituições (ZUCAL, 2012).

 

II – A moral que se beneficia com a violência produzida no contexto do consumo do futebol profissional

         Até aqui, abordei a moral que fundamenta a produção da violência no contexto do consumo do futebol profissional. Agora, pretendo discutir se, apesar de todos os prejuízos materiais e o sofrimento humano por ela produzido[6], podemos enxergar alguma dimensão subversiva nela, que contribua para minar relações de dominação (de classe, gênero, raça etc.). Alguns exemplos retirados do cenário internacional podem, num primeiro momento, nos sugerir que sim. Na Europa, por exemplo, temos alguns grupos organizados de torcedores abertamente antifascistas, que defendem causas como o fim do racismo e da homofobia no futebol, e que se envolvem em enfrentamentos violentos com grupos organizados de torcedores de extrema-direita. Em certa medida, esses enfrentamentos desafiam opressões de longa data, representando uma forma de resistência política[7]. Por exemplo, quando um integrante da Herri Norte Taldea, do Athletic de Bilbao, golpeia um neonazista da Ultra Sur[8], do Real Madri, em certo sentido, ele também golpeia a ditadura franquista e tudo aquilo que ela representou (de nefasto) para o País Basco.

No entanto, como sabemos, nem todo confronto entre grupos organizados de torcedores possui um apelo político tão evidente, servindo tão claramente de metonímia de confrontos geopolíticos mais amplos. Ainda assim, há autores que enxergaram na violência no futebol uma dimensão subversiva. Para John Clarke, por exemplo, a ruptura dos laços estabelecidos entre os jovens das classes trabalhadoras e os mais velhos, somada à resistência desses jovens à mercantilização do futebol britânico, explicaria o acirramento do hooliganismo no Reino Unido nos anos 60. De modo semelhante, para Ian Taylor, o hooliganismo poderia ser interpretado como atos articulados de resistência à referida mercantilização, que teria excluído as classes trabalhadoras dos estádios de futebol e dos processos decisórios de seus clubes. Para os críticos de Taylor, no entanto, seu trabalho não se sustenta empiricamente, o que pode tê-lo levado a interpretar (erroneamente) as origens dos sistemas políticos dos clubes de futebol como democracias participativas e não como um negócio, em que os dirigentes protegiam seus interesses muito mais do que iam atrás dos interesses dos torcedores. O próprio Taylor, é preciso destacar, reviu sua posição inicial: os hooligans deixaram de ser vistos como “lutadores resistentes” para ser interpretados como sérias “ameaças sociais” (GIULIANOTTI, 2002).

Mas, e no contexto brasileiro do consumo do futebol profissional, podemos retirar alguma dimensão subversiva da violência? O confronto anteriormente citado entre torcedores do Atlético Paranaense e do Vasco da Gama pode representar alguma forma de resistência? De alguma forma, ele coloca em xeque o atual processo de mercantilização, elitização, espetacularização e militarização dos eventos futebolísticos realizados no país? Minha resposta é um sonoro “não”! Em primeiro lugar, porque a violência no futebol brasileiro ajuda a justificar a amplificação dos dispositivos panópticos de vigilância (FOUCAULT, 2013) nos nossos estádios, que ainda que ajudem na identificação de torcedores violentos, posicionam a coletividade torcedora como uma massa de criminosos potenciais, que devem ser permanentemente vigiados, isolados e individualizados. Com isso, destrói-se uma cultura popular do torcer, baseada no movimento dos corpos e na interação entre os torcedores, considerada pelos donos do capital um empecilho para a comercialização de mercadorias. Afinal, aqueles que ficam fazendo festa nas arquibancadas ou trocando provocações antes, durante e depois dos jogos deixam de comprar produtos oficiais e de prestar atenção às mensagens dos anunciantes[9]. Não à toa encadeiraram-se os principais estádios do país, extinguindo-se as antigas gerais.

Em segundo lugar, porque a violência no futebol brasileiro ajuda a justificar a repressão às torcidas organizadas, criminalizando-as e marginalizando-as. Embora habitualmente retratadas pelos setores mais reacionários da mídia nativa como as principais protagonistas dessa violência, essas torcidas são constituídas, fundamentalmente, por torcedores pacíficos. De acordo com Murad (2012), ainda que barulhentos e perigosos, os torcedores organizados violentos constituem uma pequena minoria, algo em torno de 5%. No entanto, a ação violenta desses pequenos grupos (e de outros torcedores não filiados a torcidas organizadas, diga-se de passagem) possui um efeito em onda ou em cadeia, como uma pedra que cai dentro da água, que contagia a identidade social de todos os torcedores organizados, deteriorando-a (GOFFMAN, 1988). A deterioração da identidade desses torcedores, por sua vez, contribui para legitimar a repressão contra eles. Frequentemente, por exemplo, tem-se solicitado a extinção das torcidas organizadas — medida que acabaria com uma importantíssima fonte de identidade, socialização e lazer para milhões de jovens, que muitas vezes são excluídos de outras instituições sociais e colocados à margem da sociedade.

Em terceiro lugar, porque a violência no futebol brasileiro desmobiliza politicamente as torcidas organizadas. O confronto violento entre (alguns de) seus integrantes acirra a rivalidade entre elas, dificultando a constituição e o fortalecimento de uma entidade representativa nacional[10], que possa lutar por seus direitos. Além do mais, hoje em dia, as torcidas organizadas são um dos principais protagonistas na luta contra a mercantilização e elitização do nosso futebol. Prova disso é que, há tempos, elas realizam manifestações contra o aumento (abusivo) do preço dos ingressos. Assim, com sua estigmatização, diminui-se sua capacidade de conseguir apoio e de interferir no referido processo. Consequentemente, podemos dizer que a violência em questão contribui para a manutenção da dominação dos não pobres sobre os pobres. Afinal, ela segmenta aqueles que são capazes de se transformar num desafio real a essa forma de dominação.

Diante do exposto, pode-se afirmar que a violência no futebol brasileiro está a serviço de todos aqueles que querem implementar um modelo burguês de consumo do futebol profissional, tornando-o um evento, exclusivamente, para ser olhado, em que a liberação da emoção intensa deve ser rigidamente combatida (GIULLIANOTTI, 2012) e onde somente aqueles que têm um alto poder aquisitivo são realmente bem-vindos. Nesse sentido, ela beneficia a “moral capitalista”, que tem na disciplina dos corpos e na maximização do lucro dos grupos dominantes seus valores norteadores. Uma moral que reduz significativamente a possibilidade de o futebol ser um esporte justo, popular e democrático.

Diante disso, finalizo este texto com um apelo: torcedores de todo o Brasil, uni-vos! Pois a briga nas arquibancadas coloca a direita na cara do gol e, caso aqueles que joguem pelo lado contrário do campo político não tenham força suficiente para se defender e contra-atacar, o futebol voltará às suas origens. Totalmente elitistas e excludentes, vale lembrar!

 

Referências bibliográficas

ALABARCES, P.Crónicas del aguante: fútbol, violencia y política.Buenos Aires: Capital Intelectual, 2012.

CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 14 ed. São Paulo: Ática, 2012.

FOUCAULT, M. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. 41 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

FRANCO JÚNIOR, H. A dança dos deuses: futebol, sociedade, cultura. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

GALTUNG, J. Paz por medios pacífico: paz y conflicto, desarrollo y civilización.

Bilbao: Bakeaz; Bilbao: Gernika Gogoratuz, 2003.

GIULIANOTTI, R. Sociologia do futebol: dimensões históricas e socioculturais do esporte das multidões. São Paulo: Nova Alexandria, 2002.

GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4. ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

GRABIA, G. La doce: a explosiva história da torcida organizada mais temida do mundo. São Paulo: Panda Books, 2012.

MONTEIRO, Rodrigo A. Torcer, lutar, ao inimigo massacrar: Raça Rubro-Negra! Uma etnografia sobre futebol, masculinidade e violência. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003.

MOREIRA, Verónica. “Así cualquiera tiene aguante, de fierro tiene aguante todo el mundo”: disputas morales sobre las prácticas violentas en el fútbol. In: ZUCAL, José G. (Comp.) Violencia en el fútbol: investigaciones sociales y fracasos políticos. Buenos Aires: EGodot, 2013, p. 41-68.

MURAD, M. Para entender a violência no futebol. São Paulo: Saraiva, 2012.

NERY, A. L. Violência no futebol: mortes de torcedores na Argentina e no Brasil. Rio de Janeiro: Multifoco, 2012.

REIS, H. H. B. Futebol e violência. Campinas: Armazém do Ipê, 2006.

SUSTAS, Sebastian. Planos y lógicas de la violencia en el fútbol: Análisis y descripción de los enfrentamientos en que suceden las muertes en la Argentina. In: GODIO, Matias; ULIANA, Santiago (Comp.). Fútbol y sociedad: prácticas locales e imaginarios globales. Sáenz Peña: Universidad Nacional de Tres de Febrero, 2011, p. 197-216.

ZUCAL, J. G. Nosotros nos peleamos: violencia e identidad de una hinchada de fútbol. Buenos Aires: Prometeu Libros, 2010.

 

[1] Bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo e em Comunicação pela Escola Superior de Proganda e Marketing. Doutor em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo. Atualmente, é pós-doutorando na Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas e bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. ftplopes@yahoo.com.br

[2] Grupos organizados de torcedores que atuam nos países hispano-americanos. Tais grupos, todavia, não podem ser confundidos com as torcidas organizadas brasileiras. Afinal, eles possuem diferenças significativas em relação a elas no que diz respeito à forma de torcer (o tipo de instrumento musical utilizado, por exemplo, é outro), atuar e, em parte, de se relacionar com a violência. Hoje em dia, contudo, assistimos à emergência de alguns agrupamentos de torcedores brasileiros que se identificam culturalmente com as hinchadas, sobretudo no Rio Grande do Sul.

[3] Nesse sentido, a violência no futebol pode ser vista, em parte, como uma categoria de atividades de lazer arriscadas voluntárias (GIULLIANOTTI, 1999), tais como surfar em mares perigosos, mergulhar com tubarões ou participar de orgias sem o uso de preservativo.

[4] Esta disputa tem bem mais a ver com o contexto argentino do que com o brasileiro. Pois as hinchadas são bem menos institucionalizadas do que as nossas torcidas organizadas. Elas não possuem eleições periódicas para presidente, conselho deliberativo, estatuto etc., o que faz com que o acesso ao poder se dê por meio de confrontos físicos e armados (GRABIA, 2012).

[5] Por esta razão, Zucal (2010) sustenta que o objetivo último de um torcedor violento não é ganhar visibilidade pública per se, como acreditam alguns autores.

[6] O que, naturalmente, não pode, em hipótese alguma, ser desprezado.

[7] O que não quer dizer que ela seja, necessariamente, digna de apoio. Um pacificista, por exemplo, tende a deslegitimar o uso da violência como estratégia de resistência. “A paz é o caminho”, diria Gandhi (GALTUNG, 2003).

[8] Embora seja de conhecimento público que a Ultra Sur possua neonazistas em seus quadros, é preciso destacar que esse grupo não exige que seus integrantes sejam, necessariamente, de extrema-direita, ao menos de acordo com seu site oficial (http://www.ultras-sur.es).

[9] Aqui, é importante destacar que, no contexto do futebol, assim como o controle social está a serviço do consumo, o consumo está a serviço do controle social. Afinal, este último ajuda a redirecionar a libido do torcedor da desordem e da violência para a compra de chaveiros, camisetas, mochilas, sanduíches etc.

[10] Recentemente, alguns esforços foram feitos nesse sentido, como a criação da Confederação Nacional das Torcidas Organizadas (Conatorg), que, infelizmente, está inativa hoje em dia.

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