Revista Espaço Ética

Editorial, por Arthur Meucci

A difícil arte de ser um editor

Por Arthur Meucci[1]

Como citar:
MEUCCI, Arthur. Editorial: A difícil arte de ser um editor. in: Revista Espaço Ética: Educação, Gestão e Consumo. Ano I, N. 01, jan./abril de 2014, ps. 10-17 – ISSN: 2358-0224

Palavras-chave: edição, valores, divulgação, conhecimento

Artigo em PDF

Introdução

Terça-feira, dia oito de julho de 2008. Recebo, para minha surpresa, um e-mail da Revista de Administração de Empresas da Faculdade Getúlio Vargas (RAE-GV). O editor avisa que meu artigo, escrito em 2006, passou com sucesso por três etapas de avaliação até o parecer final. Espantei-me, pois não me lembrava mais dele. Afinal, fazia dois anos que eu tinha enviado.

Pensei comigo, “- Como pode uma revista de administração e negócios, de uma faculdade tão renomada, ter demorado tanto tempo para avaliar um artigo?”. Em um mundo mercadológico, onde os conhecimentos se tornam constantemente obsoletos, a demora na publicação significa a exposição de um conhecimento já ultrapassado. As análises e estratégias mercadológicas feitas em 2005, e enviadas no início de 2006, já não possuem tanta relevância e impacto no início do segundo semestre de 2008. No universo corporativo esse atraso seria rotulado como ineficaz. Na academia há uma maior tolerância.

No caso do meu artigo não havia a necessidade de uma imediata publicação. O trabalho era uma reflexão ética e epistemológica sobre os administradores e comunicadores organizacionais. Eu e o Prof. Dr. Clóvis de Barros Filho fizemos uma ampla pesquisa de campo sobre o discurso ético dos profissionais de comunicação corporativa e propusemos uma análise dos conceitos de “verdade”, “transparência” e “identidade profissional” que eram utilizados de maneira recorrente.

O que mais me chamou a atenção não foi só a demora do parecer, mas seu conteúdo. Eles apontam que se tratava de uma pesquisa “positiva”, ou seja, uma pesquisa de campo. Entretanto, para incomodo da revista, “prevaleceu o tom ensaístico intercalado à análise de certas evidências empíricas”. Resumindo, apesar da importância do conteúdo a linguagem utilizada não foi considerada legítima para o campo da administração. Uma clara estratégia de proteção do campo contra críticas exógenas.

No final do parecer recusaram o artigo nestas condições. Entretanto, sugeriram modificações para a publicação do mesmo: “Rever o artigo e procurar ajustar a linguagem para uma construção mais apropriada ao texto publicado, substituindo formulações que são mais próximas de conteúdos escritos (…) Procurar sistematizar a análise de evidências empíricas, melhorar e enquadrar o artigo como resultante de pesquisa positiva (…) caberia mudar a linguagem.” Em outras palavras, esqueçam todas as suas críticas ao conceito de “verdade”, “objetividade” e “transparência” e escrevam o texto se legitimando com afirmações, utilizando a pesquisa empírica para justificar objetividade, criando estatísticas e dados para simular transparência. Esquecer o estilo literal e adotar uma escrita técnica e pouco convidativa para reflexões subversivas.

Apesar do honroso convite para publicar, obedecida as revisões solicitadas, nós declinamos. Era inegável nosso interesse, mas já tínhamos transformando o artigo em um capítulo de livro (Ética na Comunicação Organizacional, Ed. Paulus, 2007).

O tempo passou, mas essa experiência ficou presente na memória. O universo editorial das revistas acadêmicas se tornou objeto de interessante. Seus critérios de seleção da produção, a linguagem utilizada, o projeto gráfico, o funcionamento do comitê editorial, a distribuição da revista, seus potenciais leitores, a repercussão dos artigos, os troféus de consagração. Por muito tempo eu me questionei sobre os critérios que faziam da RAE uma publicação tão consagrada no campo dos negócios. Seria a chancela da Fundação Getúlio Vargas? A trajetória histórica da revista? Seu comitê editorial? Descobri que era um pouco de todos estes fatores, mas que nenhum deles era decisivo. Com o tempo eu percebi que sua real força residia nos leitores da revista. Estudantes de administração, profissionais de mercado e jornalistas vivem de olho nas produções ali publicadas, esperando por novidades e textos em uma linguagem acessível. Apesar dos inúmeros aspectos negativos que eu apontei no começo, elas não afetam a credibilidade que os seus autores e leitores conferem a esta revista.

Quando o professor Clóvis de Barros Filho me convidou para montar a editora e a revista do Espaço Ética eu fiquei entusiasmado com as possíveis repercussões destes projetos. Teria nas mãos a oportunidade de construir, do zero, uma revista acadêmica interdisciplinar que possa oferecer importantes diálogos com a sociedade. Mas também fiquei preocupado, pois exige uma enorme dedicação e responsabilidade. Pesa ainda a responsabilidade de propor uma revista interdisciplinar, tentando criar pontes entre saberes distintos como a filosofia, sociologia, educação, comunicação, história, administração e outras áreas das ciências humanas que refletem sobre as diversas facetas da sociedade de consumo em que vivemos.

O que nós poderíamos propor de novo em uma revista acadêmica? O que poderíamos descartar do modelo tradicional? Como manter as virtudes que esses importantes modelos tradicionais de revista possuem? Foram muitas as perguntas que nortearam as estruturas de nossa revista que é inovadora em certos aspectos e conservadora em outros. Nossa estrutura não chocará os especialistas ou os leigos, nem pretende se manter imutável em relação a sua organização.

Toda revista acadêmica tem um dossiê – uma coletânea de textos sobre um determinado tema ou assunto –, e decidi manter as qualidades desta proposta. Porém, ao invés de delimitar uma temática, resolvi investir na ideia de meu amigo Luiz Peres-Neto e propor uma pergunta aos pesquisadores. Nesta edição a questão que sugerimos foi “podemos falar de ética no consumo?”. Confesso que nem todos os pesquisadores se sentiram seguros para desenvolver seus artigos tentando responder essa pergunta, mas obtivemos bons resultados que nos ajudam a pensar esta questão.

O primeiro artigo do dossiê é sobre violência no futebol e foi escrito por Felipe Lopes, que desenvolveu seu doutorado e pós-doutorado sobre esse tema de pesquisa. Ele analisa os aspectos sociais, culturais e psicológicos atribuídos a este fenômeno e aponta os efeitos perversos da relações de consumo entre os torcedores e seus clubes.

O segundo artigo, escrito por Eduardo Campos Garcia, tenta responder a pergunta do dossiê através de uma reflexão filosófica e antropológica da identidade contemporânea e do biopoder. Por fim, o artigo de Mário Mazzilli trata das questões econômica que enxergam na cultura um fator que agrega valor aos bens de consumo.

Como nos propomos a entender nossa atual sociedade nas diversas esferas das manifestações humanas, não poderíamos ignorar os olhares da religião para esse mundo que elegeu o ato de consumo como um ritual sagrado (SCHWERINER, 2008). O discurso religioso é mais recorrente em nossa sociedade do que o estritamente acadêmico e esse é um dos fatores determinantes para os levarmos em consideração. Também é digno de nota que a Teologia está inscrita nas áreas de pesquisa da CAPES.

Enviamos convites de publicação para faculdades de teologia evangélicas, católicas, umbandistas, islâmicas, budistas e judaicas pedindo para seus pesquisadores se pronunciarem sobre a pergunta que orienta nosso dossiê. Selecionamos estas religiões por comporem uma parte significativa da cultura brasileira, sendo que é importante mencionar que o espiritismo foi desconsiderado por não possuir instituições de educação e pesquisa teológica vinculadas ao Ministério da Educação. Os teólogos evangélicos e budistas aceitaram o convite, mas não conseguiram mandar os artigos até o prazo de fechamento da revista. As instituições judaicas em São Paulo e no Rio de Janeiro não responderam ao nosso convite. Para nossa grata surpresa os teólogos católicos, umbandistas e islâmicos enviaram artigos muito interessantes que merecem leitura atenta e reflexão.

Na sessão de artigos livres, recebemos um leque de contribuições inovadoras que discutem os problemas do nosso tempo através de perspectivas plurais. O artigo de Leandro Leonardo Batista, Claudia Valente e Ana Decloedt sobre “A responsabilidade da propaganda”, analisa a liberdade de expressão comercial como informação passada ao consumidor para que ele possa tomar boas decisões. Os pesquisadores mostram que hoje há duas posições sociais críticas desta liberdade: as que desejam a eliminação da comunicação comercial para certos grupos sociais e aqueles que querem limitar estas liberdades. Esse embate entre grupos sociais e empresas ressalta um problema sobre a ausência de comunicações sobre pontos negativos do produto os anúncios, o que prejudica a tomada de decisão do consumidor.

O ensaio de Paulo Alonso propõe uma reflexão ousada sobre as atuais estruturas universitárias de ensino diante das revoluções tecnológicas que marcam o início do século XXI. Baseado na premissa iluminista de que a universidade tem o dever de se manter na vanguarda da sociedade, Alonso propõe que as instituições de educação superior devem mergulhar em todas as novas tecnológicas antes de ganharem força no mercado. Desta maneira seus especialistas podem nos mostrar com clareza os pontos positivos e negativos de cada uma das novidades, orientar seus possíveis usos, antes de se tornarem tendências de consumo.

O artigo de Christian Godoi analisa as práticas de violência nos meios digitais. Para o autor as pulsões violentas reprimidas pela sociedade encontram na internet uma ausência de coação física e psicológica que propicia um canal para darmos vasão ao nosso lado destrutivo. Por esse motivo a violência é significada, pois cada manifestação violenta representa não só um incomodo com o conteúdo das mídias digitais, mas também aponta para as angústias destrutivas de cada usuário.

Em abril deste ano o povo brasileiro começou a debater os 50 anos da ditadura civil-militar que se instalou no Brasil em 1964, o acontecimento mais violento e traumáticos de nosso país. A historiadora e socióloga da educação Kelly Ludkiewicz Alves apresenta uma pesquisa surpreendente sobre as políticas educacionais da década de 60, analisando o governo de João Goulart e os primeiros anos da ditadura-civil-militar. Considerado um comunista ateu pelos militares e por parte da Igreja Católica, a pesquisa mostra que Jango era religioso e que incluiu a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em todos os seus programas sociais, especialmente na direção do Movimento de Educação de Base (MEB).

Apesar da força que a Igreja Católica ganhou em seu governo, ela decidiu apunhalá-lo pelas costas e se unir aos civis e militares golpistas. Como efeito inesperado viram a continuidade das estruturas do Movimento de Educação de Base na ditadura militar receberem outro nome (MOBRAL), a diminuição gradativa da ênfase dos aspectos sociais do projeto e a sua perda de participação na política.

Nossa revista também contará com um espaço para colunistas dissertarem sobre suas experiências interdisciplinares nas ciências humanas. Não é comum revistas acadêmicas contarem com colunistas, recurso típico de impressos de grande circulação. Porém, nos agrada a ideia de ter intelectuais sensíveis ao cotidiano escrevendo sobre as mudanças sociais sob a perspectiva de seus campos de conhecimento. Nesta edição contaremos com duas colunas fixas, com os temas educação e corrupção.

O filósofo e educador Flávio Tonnetti contribuirá com reflexões sobre o uso de novas tecnologias no campo da educação. Em sua primeira coluna ele aponta um erro importante ao associar os processos educacionais aos de consumo. Como ele nos mostra, um produto feito para o consumo já surge pronto e destinado a uma finalidade específica. Já a educação é um processo contínuo de aprendizagem e de lapidação da personalidade, uma transformação impalpável que não pode prometer um único conhecimento sobre o mundo ou uma personalidade determinada em contrato. Não podemos transformar os seres humanos em um produto de consumo ou em um objeto para o sistema.

O cientista político Sérgio Praça, especialista em sistemas de corrupção, analisa como a falta de rotatividade nas organizações governamentais pode gerar uma série benefícios, como a expertise em políticas de financiamento bem sucedidas através de um histórico de acertos e erros, como também a cristalização de relações de poder que geram esquemas de corrupção. Sua análise das instituições públicas também pode ser estendida para as empresas privadas.

Gostaria de encerrar meu texto agradecendo a todos os membros do conselho técnico e editorial. Cada um deles contribuiu para a realização deste empreendimento. Seus nomes não foram publicados pro forma.

Esta é uma revista com objetivos ousados e com uma política editorial orgânica, que prima pela divulgação do conhecimento e não pelas normas reproduzidas pela academia ou pela avaliação do Qualis.

Deixo aos leitores as descobertas de outras semelhanças e diferenças de nossa proposta editorial em relação as revistas acadêmicas tradicionais. Certamente estas percepções vão gerar reflexões e debates sobre a forma mais adequada de se transmitir o conhecimento, possibilitando assim uma postura crítica em relação a nossa proposta.

 

Bibliografia

SCHWERINER, Mário E. René. O consumo e a dimensão espiritual das marcas: uma análise crítica. 2008. 171 f. Tese (Doutorado em Teologia) – Programa de pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo). São Bernardo do Campo, 2008

 

[1] Bacharel, Licenciado e Mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo, doutorando em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Mackenzie, formado em Psicanálise pelo Instituto Brasileiro de Ciência e Psicanálise. Professor conferencista da ECA-USP, Membro da Associação Filosófica Scientiæ Studia e editor-chefe do Espaço Ética. arthur@espacoetica.com.br

Tags: , , , ,

Sorry, the comment form is closed at this time.

Educação, Gestão e Consumo

Endereço de contato: Rua Maranhão, 620, cj. 141, Higienópolis – São Paulo – SP - CEP 01240-000

Telefone: (11) 2659-6945 / email: revista@espacoetica.com.br